NO ÔNIBUS

21.09.2017

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Eu entrei no ônibus certa vez com meu black-power solto, me sentindo a tal. Todos do ônibus, sem exceção, me olharam, uns como quem diziam: "Uaauuu que cabelo maravilhoso" outros: "Nossa que cabelo horroroso". Eu não ligava, eu queria que me notassem e notaram.

Ouvi um burburinho no fundo do ônibus e no meio da "baguncinha" alguém dizia: "Que  montão de bombril", enquanto outro disse um pouco mais alto: "Vamos ariar panela?"

Eu não olhei para traz e não disse nada, convicta de que

 

 meu cabelo não é bombril nenhum, apesar de me sentir 1001 vezes mais linda com ele jogado na cara da sociedade. Mas eu não sou ingênua e sei que se referiam ao meu cabelo.

 

Em outro momento da minha vida, estava eu subindo no ônibus novamente, como todo santo dia, com meu turbante maravilhoso sentindo me como quem desfila com uma coroa de diamantes na cabeça. Como de costume, todos me olharam, uns com admiração e outros com desdém. Mas, percebe? Me notaram.

Ao chegar em meu destino me levantei e dei sinal, enquanto andava o corredor do ônibus, todas as cabeças me acompanhavam. Parada na porta, um rapaz no último banco junto a uma moça, riam de sair lágrimas dos olhos. Me olhou, o rapaz, rindo e banhado em suas lágrimas e disse: "Marge Simpson!!! É você?" O que que tem? Marge é uma personagem muito famosa e eu pelo visto também né?! Mas eu não sou ingênua, no fundo eu queria mostrar o maior dedo da minha mão.

 

Recentemente, fiz tranças no cabelo, me sinto nova e independente, a contar que eu mesma as fiz. Pra variar, impossível agradar a todos os gostos, mas eu só queria agradar a um, o meu. Assim o fiz, e amei. Ainda chama atenção, devido as tranças azuis que estão entre as pretas.

Lá estava eu, cumprindo minha rotina, subindo no segundo ônibus depois de voltar da faculdade, borbulhando na cabeça como conseguir terminar todos meus trabalhos em tempo hábil. Ônibus lotado. Entrei e fiquei perto da porta, coloquei minha mochila no chão. Algumas pessoas olhavam pra traz de vez em quando, uma a minha frente me olhava sem querer disfarçar . Tudo bem! Eu tô bonita! Um dos três rapazes em pé, próximos de mim, mais de frente para a porta, começaram a me olhar e de repente algumas gargalhadas. Estavam rindo de mim. Já tô acostumada. O menorzinho (só em tamanho) disse, como se quisesse que eu ouvisse: "Eu que vou fazer umas tranças dessas, porque aí ..." meu olhar interrompeu a sua frase, eu apenas olhei, porque queria saber o porquê ele faria as tranças, afinal, qualquer 100 reais eu mesma faria as tranças pra ele. Mas os três pararam de rir simultaneamente e ficaram de costas, um deles ainda segurava o riso. Meu ponto chegou e eu desci.

 

Percebeu, que a única vez que a opressão foi "controlada", foi quando eu tive uma reação?

Eu vivi uma vida inteira, fazendo o que os outros queriam e ouvindo calada vários insultos. Aceitando todos como se fossem verdade.  Acontece que as coisas mudaram pra mim, deveriam mudar para a sociedade, mas enquanto isso não acontece, alguém tem que começar essa mudança.

 

Dentro do ônibus eu ouvi muitas coisas, mas foi dentro dele também que fiz todas as reflexões possíveis... inclusive esta.

Não se pode aceitar calados o que dizem eles, muito menos se estruturar ou até mesmo se destruturar em função dos pensamentos deles. Não se pode deixar passar insultos aos nossos cabelos, disfarçados de "minha opinião ", muito menos fingir que esses insultos não nos afeta. É mentira, afeta sim. Porque o que dizem não é sobre nossos cabelos, é sobre racismo, discriminação e preconceito.

 

Então, não seja um deles e nem bata palmas pra eles. Porque eles constroem negros e negras medrosos, tímidos, emotivos, tristes, sem autoestima, sem esperança. Porque quando um cabelo é diminuído, um ego é diminuído junto. Fazer o outro se sentir indiferente é destruir uma alma aos poucos.

 

Encarar de frente, e interromper ofensas no meio do caminho, faz você descer do ônibus com a certeza de que oprimidos podem oprimir também.

 

Mas perceba! Eu fui notada.

 

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